
Planejar um procedimento cirúrgico eletivo, aquele que não é de urgência, mas pode ser programado, é fundamental para reduzir riscos no pós-operatório e favorecer uma recuperação mais tranquila e eficaz. Ao longo de mais de duas décadas como fisioterapeuta, observei que muitos dos “sucessos” cirúrgicos não dependem apenas da técnica ou da reabilitação, mas também do preparo integral do paciente antes mesmo da cirurgia.
As evidências científicas atuais mostram três pilares essenciais nesse preparo: boca, corpo e mente.
- A boca como porta de entrada de complicações
A saúde bucal tem impacto direto no risco de infecções pós-operatórias, especialmente em grandes cirurgias ou em pacientes mais vulneráveis. Afinal, o sangue que irriga dentes e gengivas é o mesmo que circula por todo o corpo.
Um estudo do Journal of Oral and Maxillofacial Surgery (2024) constatou que a desinfecção oral prévia reduz significativamente os microrganismos na saliva perioperatória, diminuindo a chance de bactérias alcançarem pulmões ou outras regiões do organismo.
Recomendações práticas:
• Fazer avaliação odontológica antes da cirurgia.
• Tratar infecções ou focos odontológicos ativos.
• Manter higiene rigorosa: escovação, fio dental e antisséptico bucal prescrito.
- Preparar o corpo: equilíbrio, nutrição e hábitos
A cirurgia eletiva oferece uma oportunidade valiosa para otimizar o estado fisiológico do paciente. Quanto mais saudável estiver o organismo, menores são os riscos de complicações.
Em muitas cirurgias ortopédicas, a fisioterapia pré-cirúrgica ajuda no ganho e na manutenção de força e função, favorecendo a recuperação no pós-operatório.
Uma revisão sistemática no JAMA Network Open (2023), com mais de 3.500 pacientes, demonstrou que programas de preabilitação, exercícios, nutrição adequada e preparo psicológico, melhoram força muscular, função física, qualidade de vida e ainda reduzem dor após cirurgias ortopédicas, como próteses de joelho, quadril e coluna.
Já o Journal of Orthopaedic Trauma (2023) revelou que diabéticos com glicose mal controlada antes da cirurgia de fraturas têm risco aumentado de infecção e pior consolidação, reforçando a importância do controle metabólico.
Recomendações práticas:
• Manter doenças crônicas bem controladas (diabetes, hipertensão, etc.).
• Otimizar nutrição (proteínas, vitaminas, minerais).
• Reduzir ou interromper tabagismo e álcool.
• Incluir atividade física regular.
- Saúde mental: o impacto invisível
O aspecto emocional costuma ser subestimado, mas pode mudar o resultado cirúrgico.
Uma meta-análise recente mostrou que a ansiedade antes da cirurgia está presente em 60 a 80% dos pacientes, associada a maior uso de anestésicos, dor mais intensa, recuperação mais lenta e mais complicações pós-cirúrgicas.
Recomendações práticas:
• Avaliar níveis de ansiedade já na preparação cirúrgica.
• Buscar informações claras sobre o procedimento e a recuperação. Pois a segurança do que vem a seguir pode reduzir a ansiedade.
• Usar recursos simples como técnicas de relaxamento, música e suporte psicológico quando necessário.
Em resumo: antes de marcar uma cirurgia eletiva, use o tempo disponível para:
• preparar a boca (prevenir e tratar infecções);
• fortalecer o corpo (controlar doenças, melhorar nutrição e hábitos);
• cuidar da mente (reduzir ansiedade e estresse).
Quando esses três pilares estão alinhados, os riscos diminuem, a recuperação é mais tranquila, a dor é menor e até os custos reduzem.
Referências bibliográficas:
• Iwata E, et al. Journal of Oral and Maxillofacial Surgery, 2024.
• Hoogeboom TJ, et al. JAMA Network Open, 2023.
• Haws BE, et al. Journal of Orthopaedic Trauma, 2023.
• Aust H, et al. British Journal of Anaesthesia, 2018.

Dra. Ana Gil – Fisioterapeuta e CEO do Espaço Ana Gil