
Sentir dor na frente do joelho ao descer escada, agachar ou depois de um treino mais pesado é mais comum do que parece. Outra situação comum é a de quem aumentou a corrida ou a musculação recentemente e começa a sentir essa mesma dor. Nas duas situações, a busca por resposta vem cheia de informação contraditória: um site fala em desgaste de cartilagem, outro fala em pisada errada, outro culpa o tênis.
Essa dor na região anterior do joelho tem nome, dor patelofemoral, também conhecida como joelho do corredor. E a ciência já mostra bem que ela quase nunca tem uma causa única.
O que realmente causa essa dor no joelho
A dor patelofemoral acontece quando a articulação entre a patela (o osso arredondado na frente do joelho) e o fêmur fica sobrecarregada. Costuma ser associada à condropatia patelar, também chamada de condromalácia, o desgaste da cartilagem dessa região. Mas uma coisa nem sempre acompanha a outra: há gente com dor e cartilagem preservada no exame, e gente com desgaste visível na imagem e nenhuma dor. É parecido com uma ruga na pele: aparece com o tempo e o uso, mas isso não quer dizer que seja ela a explicação de uma dor nos olhos, por exemplo. Por isso o exame de imagem não conta a história toda, e a avaliação clínica detalhada é o que mostra o que realmente causa a dor de cada paciente.
As causas reais costumam ser uma combinação de fatores, não um vilão só. Uma revisão publicada na British Journal of Sports Medicine, em 2013, associou essa dor à fraqueza de músculos do quadril, à força mais baixa da coxa (quadríceps) e ao alinhamento da perna. É como um guarda-chuva com uma vareta fraca: a sobrecarga é jogada para outro ponto, nesse caso, o joelho. A forma como o pé toca o chão também entra na conta: uma metanálise publicada na Translational Sports Medicine, em 2026, mostrou maior queda do arco do pé ao pisar em quem sente essa dor. Quadril, pé, postura e joelho trabalham em conjunto, e o desequilíbrio em qualquer um sobrecarrega a região.
Quem sente mais esse tipo de dor no joelho
Mulheres têm cerca de duas vezes mais chance de desenvolver essa dor no joelho do que homens, sobretudo corredoras e quem pratica atividades com salto ou agachamento repetido. O gatilho mais comum não é treinar muito, é aumentar a carga de treino de forma brusca, sem progressão gradual.
O que a ciência diz sobre o tratamento da dor no joelho
Um estudo publicado na Osteoarthritis and Cartilage, em 2015, acompanhou centenas de joelhos: o desgaste isolado de um lado da cartilagem não teve relação com a dor, enquanto o do outro lado teve. O mesmo achado pode ou não explicar a dor, dependendo de onde está e do que mais a avaliação clínica encontra.
O consenso internacional mais recente de especialistas em dor patelofemoral, publicado na British Journal of Sports Medicine em 2018, recomenda a terapia por exercícios, unindo quadril e joelho, como tratamento de primeira linha, sem incluir a cirurgia no protocolo padrão. Na nossa prática, fisioterapia, osteopatia e exercício terapêutico caminham juntos, sempre ajustados à avaliação de cada paciente.
Um caso que ilustra bem isso
Paciente esportista (atividade física 7 vezes por semana, intercalando entre corrida e musculação) começou a sentir dor na região anterior do joelho e parou de se exercitar, o que a deixou ainda mais tensa e ansiosa. Quem treina com esse volume semanal quase pira em ficar parado. Ao vir até minha clínica, realizamos uma avaliação completa e iniciamos o tratamento, direcionei ela para exercícios com menos sobrecarga, e ao longo do programa de tratamento fomos progredindo as cargas e os exercícios. Em 3 consultas já estava voltando a correr, sanou todas as dores e retornou ao treino habitual, e seguiu progredindo gradualmente os exercícios com o preparador físico dela.
O que fazer na prática
- Buscar avaliação clínica detalhada da postura e da mecânica dos movimentos, não só o exame de imagem.
- Fortalecer quadril, core e musculatura ao redor do joelho.
- Ajustar a progressão de carga do treino, sem parar completamente.
- Investigar fatores individuais, já que cada paciente pode ter causas diferentes.
Perguntas frequentes
Dor no joelho é sempre sinal de condromalácia?
Não necessariamente. É possível ter dor no joelho com a cartilagem preservada, e ter desgaste de cartilagem sem sentir dor nenhuma, por isso a avaliação clínica importa mais do que o nome no laudo.
Dor no joelho significa que preciso parar de treinar?
Na maioria dos casos não, o ajuste costuma ser na forma e na progressão da carga, não na parada total.
Dor na região anterior do joelho sempre precisa de cirurgia?
É raro. O tratamento padrão é conservador, com exercício e acompanhamento profissional.
Pisada errada é sempre a causa da dor no joelho?
É um dos fatores possíveis, não o único. Quadril, alinhamento, alterações posturais e padrão de movimento também entram na avaliação.
Dor no joelho assusta menos quando se entende que ela quase nunca tem uma causa única. Antes de focar só no que apareceu no exame, vale perguntar: minha avaliação olhou para o quadril, a pisada e o movimento como um todo, ou só para o joelho?
Referências científicas
- Lankhorst NE, Bierma-Zeinstra SMA, van Middelkoop M. Factors associated with patellofemoral pain syndrome: a systematic review. British Journal of Sports Medicine. 2013;47(4):193-206. doi:10.1136/bjsports-2011-090369
- Chaffe LP, Silva JLF, Pereira NDS, et al. Foot and Ankle Biomechanics in Individuals With Patellofemoral Pain: A Systematic Review and Meta-Analysis. Translational Sports Medicine. 2026;2026:7859730. doi:10.1155/tsm2/7859730
- Vora M, Curry E, Chipman A, Matzkin E, Li X. Patellofemoral pain syndrome in female athletes: a review of diagnoses, etiology and treatment options. Orthopedic Reviews. 2017;9(4):7281. doi:10.4081/or.2017.7281
- Collins NJ, Barton CJ, van Middelkoop M, et al. 2018 Consensus statement on exercise therapy and physical interventions (orthoses, taping and manual therapy) to treat patellofemoral pain. British Journal of Sports Medicine. 2018;52(18):1170-1178. doi:10.1136/bjsports-2018-099397

Escrito por
Dra. Ana Gil
Fisioterapeuta · Diretora do Espaço Ana Gil




